Dilúvio II  Óleo sobre tela, 200 x 250 cm, 2018. Cortesía de SIM

Dilúvio

  • Abjeto: arremessado para baixo, algo soterrado. Objeto: lançado para frente, o que se apresenta diante de si. Abjeto objeto, em sua etimologia, fruto de um duplo arremesso: aquele que concretiza uma coisa em um dado contexto e aquele que aponta para o que estava isolado por perturbar a aparente ordem de um certo sistema. São estas duas atitudes que a produção recente de Bruno Dunley tenta colidir e deixar em atrito. O caráter objetual da pintura, consolidado ao longo dos séculos, é o que garante a esse meio sua identidade como fenômeno sensível móvel e autocontido, cujos significados estruturam-se pelas propriedades internas do quadro: sua escala, sua relação com suas bordas, seus signos, sua matéria cromático-luminosa e seus índices de fatura e procedimento pictórico. O funcionamento dessa epistemologia sempre interessou Bruno Dunley, preocupado não apenas em compreendê-los, como em recombiná-los em pinturas que evidenciam suas similitudes e diferenças com outros regimes sistêmicos de apresentação visual de ideias, como gráficos, diagramas, manuais de instrução e alfabetos. Nesse sentido, muito da pintura de Dunley assemelha-se a estudos combinatórios de modos de lançar um signo diante de outrem. As pinturas que recebem o visitante desta exposição, Sol (2017) e No lugar em que já estamos (2014), são exemplos claros dessa atitude. Já a abordagem do abjeto passa por uma operação mais esquiva. As ideias e formas que são lançadas para o campo da abjeção vão parar ali porque sua presença perturba a autoimagem dos sujeitos e da sociedade em que vivem. Apesar do dicionário associar o abjeto ao que é vil ou perverso, ele é na verdade apenas o que perturba e precisa ser retirado da linha do olhar. Nada que fica escondido, porém, deixa de existir – e sempre houve alguma forma de dar lugar para isso, desde os rituais ancestrais, até a psicanálise, passando pela escrita escatológica. A produção atual de Bruno Dunley, artista particularmente sensível ao que há de abjeto e obsceno nos tempos atuais, demonstra interesse por continuar essa linhagem, atualizada pela difícil tarefa de produzir algum abalo sensível numa era supersaturada de todo tipo de imagens.

  • Dónde

    SIM Galeria / Curitiba, Parana, Brasil
  • Inauguración

    05 may de 2018

  • Artistas que participan en Dilúvio


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